Estoque de segurança: fórmula, exemplo passo a passo e erros comuns
Como calcular o estoque de segurança com a fórmula do fator Z, o desvio da demanda e o lead time, com um exemplo numérico, a relação com o ponto de pedido e os erros que inflam o estoque.
O que é o estoque de segurança
O estoque de segurança é a quantidade de produto que você mantém acima da demanda esperada para cobrir duas coisas que não controla: os clientes pedirem mais do que o previsto e o fornecedor entregar mais tarde do que o combinado.
Não é uma "gordura" escolhida a olho. É um número que sai de três dados: quanto a sua demanda varia, quanto tempo o produto leva para chegar e que nível de serviço você quer dar. Mude qualquer um dos três e o estoque de segurança muda junto.
Convém distingui-lo do estoque de ciclo, que cobre a demanda média entre uma reposição e a seguinte. O estoque de ciclo depende de quanto você pede de cada vez; o de segurança, de quanto você erra.
A fórmula básica
A fórmula mais usada, válida quando a demanda varia e o lead time é estável:
Onde:
- ES é o estoque de segurança, em unidades.
- Z é o fator de segurança associado ao nível de serviço desejado (veja a tabela a seguir).
- σd é o desvio-padrão da demanda por período (dia, semana ou mês, o mesmo período em que você mede o lead time).
- LT é o lead time (prazo de entrega) nesses mesmos períodos.
A raiz quadrada aparece porque a variabilidade acumulada em vários períodos não cresce de forma linear, mas com a raiz do número de períodos, desde que os períodos sejam independentes entre si.
Como escolher o fator Z
O fator Z vem da distribuição normal: é o número de desvios-padrão que você precisa cobrir para que a probabilidade de não faltar produto durante o lead time seja igual ao nível de serviço escolhido.
| Nível de serviço (ciclo) | Fator Z | Leitura |
|---|---|---|
| 85 % | 1,04 | Itens C, baixo valor |
| 90 % | 1,28 | Itens C e B de baixo giro |
| 95 % | 1,65 | Padrão para a maioria dos itens B |
| 97,5 % | 1,96 | Itens A |
| 98 % | 2,05 | Itens A |
| 99 % | 2,33 | Críticos: sem substituto, multa por falta |
| 99,9 % | 3,09 | Só quando a falta é inaceitável |
Duas coisas que a tabela ensina. Primeiro, o custo cresce mais rápido que o serviço: passar de 95 para 99 % sobe o Z de 1,65 para 2,33, 41 % a mais de estoque de segurança por quatro pontos de serviço. Segundo, o "nível de serviço de ciclo" (probabilidade de não faltar durante um ciclo de reposição) não é o mesmo que o fill rate (porcentagem da demanda atendida). O fill rate costuma ser maior que o nível de serviço de ciclo, porque uma falta raramente afeta toda a demanda do período.
Exemplo passo a passo
Um distribuidor vende um item com estes dados, medidos em semanas:
- Demanda média: 200 unidades por semana.
- Desvio-padrão da demanda semanal (últimas 52 semanas): σd = 50.
- Lead time do fornecedor: LT = 3 semanas, estável.
- Nível de serviço-alvo: 95 %, portanto Z = 1,65.
Aplicando a fórmula:
Ou seja, para ter 95 % de probabilidade de não ficar sem produto enquanto o pedido chega, este item precisa de 143 unidades acima da demanda esperada durante o lead time.
Se o nível de serviço-alvo fosse 99 %, o estoque de segurança seria 2,33 × 50 × 1,732 = 202 unidades. Quatro pontos de serviço custam 59 unidades a mais, sempre em estoque.
Quando o lead time também varia
Na vida real o fornecedor nem sempre leva três semanas. Se o lead time tem o próprio desvio-padrão (σLT), a fórmula completa combina as duas fontes de variabilidade:
Onde d é a demanda média por período e σLT o desvio-padrão do lead time, nos mesmos períodos.
Seguindo o exemplo, suponha que o lead time varia com σLT = 0,5 semana:
Meia semana de variabilidade na entrega subiu o estoque de segurança de 143 para 218 unidades. Em muitos catálogos a variabilidade do fornecedor pesa mais que a da demanda, e é a que quase ninguém mede. Antes de subir o estoque de segurança, às vezes sai mais barato negociar com o fornecedor.
Estoque de segurança e ponto de pedido
O estoque de segurança não é usado sozinho. Ele entra no ponto de pedido (ROP), que é o nível de estoque em que um novo pedido deve ser disparado:
Com os dados do exemplo (lead time estável):
Quando o estoque disponível (físico mais em trânsito menos comprometido) cai abaixo de 743, pede-se. As 600 unidades cobrem a demanda esperada durante as três semanas de entrega; as 143 cobrem a variabilidade. Se ao chegar o pedido ainda restam cerca de 143 unidades, o sistema está funcionando como foi desenhado. Se sistematicamente restam 300, o estoque de segurança está inflado; se muitas vezes fica em zero, está curto ou o lead time é maior do que o usado.
Como calcular no Excel
Com a demanda semanal num intervalo, por exemplo B2:B53:
- Desvio-padrão da demanda:
=DESVPAD.A(B2:B53)(em inglês,STDEV.S). - Fator Z para um nível de serviço na célula
E1(por exemplo 0,95):=INV.NORMP.N(E1)(em inglês,NORM.S.INV). Retorna 1,645. - Estoque de segurança com lead time estável em
E2:=INV.NORMP.N(E1)*DESVPAD.A(B2:B53)*RAIZ(E2). - Com variabilidade do lead time (σLT em
E3, demanda média comMÉDIA):=INV.NORMP.N(E1)*RAIZ(E2*DESVPAD.A(B2:B53)^2+MÉDIA(B2:B53)^2*E3^2).
Para um catálogo completo, a tabela tem uma linha por item com demanda média, desvio, lead time, seu desvio e o nível de serviço atribuído conforme a classificação ABC. O resto são essas mesmas fórmulas arrastadas.
Erros comuns
- Usar o desvio das vendas em vez da demanda. Quando houve ruptura, as vendas foram menores que a demanda real e o desvio sai artificialmente baixo. É preciso corrigir os meses com falta de estoque, ou o cálculo se retroalimenta: menos estoque de segurança, mais rupturas, desvio ainda mais baixo.
- Mesmo nível de serviço para todo o catálogo. Um 98 % nos itens C imobiliza capital no que menos importa. Classifique (ABC por valor, XYZ por variabilidade) e atribua um nível por classe.
- Misturar períodos. Desvio semanal com lead time em dias, ou o contrário. Tudo na mesma unidade de tempo.
- Ignorar a variabilidade do fornecedor. Como mostra o exemplo, meia semana de σLT mudou o resultado em 50 %. Meça os prazos de entrega reais, não os do contrato.
- Aplicar a fórmula à demanda intermitente. Com muitos períodos em zero, a demanda não é normal e o desvio-padrão não descreve o risco. Esse caso pede outro tratamento.
- Calcular uma vez e esquecer. O desvio muda com a sazonalidade, os lançamentos e as trocas de fornecedor. Recalcula-se a cada ciclo.
- Confundir estoque de segurança com estoque de antecipação. O estoque que você acumula antes de uma temporada ou promoção é planejado, não de segurança. Misturá-los infla o primeiro e esconde o segundo.
A relação com a previsão
A fórmula básica usa o desvio da demanda. Mas, se você tem uma previsão, o que realmente importa não é quanto a demanda varia e sim quanto você erra ao prevê-la. Por isso a versão mais precisa substitui σd pelo desvio-padrão do erro de previsão (real menos previsto) por período.
A consequência é importante: quando a previsão melhora, o estoque de segurança cai, sem mexer no nível de serviço. Um item com demanda muito sazonal tem desvio da demanda alto, mas, se o modelo captura a sazonalidade, o erro é pequeno e o estoque de segurança necessário também. É por essa via que uma previsão melhor se converte em menos estoque com o mesmo serviço.
Para isso é preciso uma previsão que guarde cada ciclo e meça seu erro por item. É o que o ForecastSolve faz no Excel e o DemandSolve para uma equipe: todo mês ficam registrados a previsão, o real e as métricas de erro que alimentam este cálculo.
Quer saber quanto estoque de segurança está sobrando?
Se a sua previsão não mede o próprio erro, o estoque de segurança está calculado às cegas. Mostramos como fazer com os seus dados.
Conhecer o ForecastSolve →Perguntas frequentes
O estoque de segurança se soma ao estoque normal?
Sim. O estoque-alvo é o estoque de ciclo (o que cobre a demanda esperada até a próxima reposição) mais o estoque de segurança (o que cobre a variabilidade). O ponto de pedido inclui os dois.
Que nível de serviço devo usar?
Não o mesmo para todo o catálogo. Os itens A e de alto giro costumam levar 97 a 99 %; os C, 85 a 90 %. Subir de 95 para 99 % custa 41 % a mais de estoque de segurança, então a decisão é econômica, não técnica.
Com que frequência recalcular o estoque de segurança?
Pelo menos a cada ciclo de S&OP (mensal), porque o desvio da demanda e o lead time mudam. Um estoque de segurança calculado uma vez e esquecido acaba protegendo a demanda de dois anos atrás.
A fórmula serve para demanda intermitente?
Mal. Ela supõe que a demanda segue uma distribuição normal e, com muitos meses em zero, isso não se cumpre. Para esses itens convém outra abordagem; explicamos no artigo sobre demanda intermitente.
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